O que o mercado real mostra (e por que essa manchete não se sustenta)

De tempos em tempos, surge uma manchete alarmista dizendo que o câmbio Powershift “custa mais que o carro”.
Recentemente, um grande veículo chegou a afirmar que a caixa completa custaria cerca de R$ 88 mil, valor superior ao preço de mercado de um Fiesta usado.
O número impressiona.
Mas quando a gente sai da manchete e entra no mundo real, a história muda completamente.
O primeiro erro: confundir “preço corporativo” com mercado real
Esse valor inflado não vem de anúncios, nem de oficinas, nem do mercado de reposição.
Ele normalmente nasce de tabelas internas de concessionária, onde a montadora precifica:
- conjunto completo, fechado
- sem reaproveitamento de componentes
- com logística, impostos e margem corporativa
- pensado para substituição total, não para reparo
Ou seja: é um número que existe no sistema, mas não representa uma solução prática.
É como dizer que “trocar o motor custa R$ 300 mil” porque alguém resolveu precificar o carro inteiro como peça.
Pesquisa simples: quanto custa uma caixa Powershift inteira no Brasil?

Em marketplaces como o Mercado Livre, o que se encontra são:
- caixas completas usadas
- retiradas de veículos sinistrados ou desmontados
- prontas para reposição ou base de reparo
Os valores praticados ficam na casa dos milhares de reais, normalmente variando conforme estado, modelo e procedência — não em dezenas de milhares.
Essa simples pesquisa já desmonta a manchete.
O segundo erro: tratar o Powershift como “peça única”
O Powershift não é um bloco monolítico descartável.
Ele é composto por sistemas independentes:
- embreagens (como em um câmbio manual)
- atuadores
- módulo TCM
- sistema de vedação
- software e reaprendizados
Na prática, não se troca tudo quando há falha.
Troca-se o componente defeituoso.
Esse detalhe, convenientemente ignorado por muitas matérias, muda completamente o custo de manutenção.
“Custa mais que o carro”: uma comparação desonesta
Outro truque clássico é comparar:
- o preço mínimo de um carro usado
com - o pior cenário hipotético de manutenção
Isso ignora:
- histórico do veículo
- diagnóstico real
- mercado independente
- soluções progressivas
É como dizer que reformar uma casa custa mais que comprar outra, usando como base uma obra de luxo para comparar com um imóvel popular.
A conta não fecha porque o método é errado.
Reparar um Powershift é possível?
Sim — e acontece todos os dias
Hoje o Brasil conta com:
- oficinas especializadas
- peças disponíveis
- diagnóstico preciso
- reparos parciais e inteligentes
Isso não torna o Powershift perfeito.
Mas o tira do campo do “terror mecânico” e o coloca no campo da engenharia real.
E um detalhe importante:
muitos problemas vêm de uso incorreto e desinformação, não de falha estrutural absoluta.
O verdadeiro vilão: a desinformação
Manchetes exageradas não ajudam:
- o comprador de usado
- o dono atual
- o mercado como um todo
Elas só geram pânico, afastam compradores e empurram carros bons para o rótulo de “bomba”, mesmo quando estão em bom estado.
Informação correta não elimina risco.
Mas elimina medo irracional.
Conclusão
O Powershift tem histórico, limitações e pontos de atenção.
Mas ele não custa R$ 88 mil no mundo real.
Esse número nasce de tabelas corporativas e comparações mal-intencionadas, não da prática de mercado.
Antes de repetir manchetes, vale fazer o básico:
pesquisar, entender e contextualizar.
Porque manutenção se resolve com conhecimento.
Pânico só resolve clique.

Criador do projeto Red Garage, entusiasta de mecânica automotiva e proprietário de Ford Focus. Produz conteúdo técnico e honesto sobre manutenção, diagnóstico e escolhas conscientes no universo automotivo.