Powershift custa mais que o carro?

O que o mercado real mostra (e por que essa manchete não se sustenta)

Revista diz que o Powershift custa mais de 80 mil – Desinformação!

De tempos em tempos, surge uma manchete alarmista dizendo que o câmbio Powershift “custa mais que o carro”.
Recentemente, um grande veículo chegou a afirmar que a caixa completa custaria cerca de R$ 88 mil, valor superior ao preço de mercado de um Fiesta usado.

O número impressiona.
Mas quando a gente sai da manchete e entra no mundo real, a história muda completamente.


O primeiro erro: confundir “preço corporativo” com mercado real

Esse valor inflado não vem de anúncios, nem de oficinas, nem do mercado de reposição.
Ele normalmente nasce de tabelas internas de concessionária, onde a montadora precifica:

  • conjunto completo, fechado
  • sem reaproveitamento de componentes
  • com logística, impostos e margem corporativa
  • pensado para substituição total, não para reparo

Ou seja: é um número que existe no sistema, mas não representa uma solução prática.

É como dizer que “trocar o motor custa R$ 300 mil” porque alguém resolveu precificar o carro inteiro como peça.


Pesquisa simples: quanto custa uma caixa Powershift inteira no Brasil?

https://www.canaldapeca.com.br/blog/wp-content/uploads/2018/05/cambio-1.png
Convido o editor da revista vir para o mundo real

Em marketplaces como o Mercado Livre, o que se encontra são:

  • caixas completas usadas
  • retiradas de veículos sinistrados ou desmontados
  • prontas para reposição ou base de reparo

Os valores praticados ficam na casa dos milhares de reais, normalmente variando conforme estado, modelo e procedência — não em dezenas de milhares.

Essa simples pesquisa já desmonta a manchete.


O segundo erro: tratar o Powershift como “peça única”

O Powershift não é um bloco monolítico descartável.

Ele é composto por sistemas independentes:

  • embreagens (como em um câmbio manual)
  • atuadores
  • módulo TCM
  • sistema de vedação
  • software e reaprendizados

Na prática, não se troca tudo quando há falha.
Troca-se o componente defeituoso.

Esse detalhe, convenientemente ignorado por muitas matérias, muda completamente o custo de manutenção.


“Custa mais que o carro”: uma comparação desonesta

Outro truque clássico é comparar:

  • o preço mínimo de um carro usado
    com
  • o pior cenário hipotético de manutenção

Isso ignora:

  • histórico do veículo
  • diagnóstico real
  • mercado independente
  • soluções progressivas

É como dizer que reformar uma casa custa mais que comprar outra, usando como base uma obra de luxo para comparar com um imóvel popular.

A conta não fecha porque o método é errado.


Reparar um Powershift é possível?

Sim — e acontece todos os dias

Hoje o Brasil conta com:

  • oficinas especializadas
  • peças disponíveis
  • diagnóstico preciso
  • reparos parciais e inteligentes

Isso não torna o Powershift perfeito.
Mas o tira do campo do “terror mecânico” e o coloca no campo da engenharia real.

E um detalhe importante:
muitos problemas vêm de uso incorreto e desinformação, não de falha estrutural absoluta.


O verdadeiro vilão: a desinformação

Manchetes exageradas não ajudam:

  • o comprador de usado
  • o dono atual
  • o mercado como um todo

Elas só geram pânico, afastam compradores e empurram carros bons para o rótulo de “bomba”, mesmo quando estão em bom estado.

Informação correta não elimina risco.
Mas elimina medo irracional.


Conclusão

O Powershift tem histórico, limitações e pontos de atenção.
Mas ele não custa R$ 88 mil no mundo real.

Esse número nasce de tabelas corporativas e comparações mal-intencionadas, não da prática de mercado.

Antes de repetir manchetes, vale fazer o básico:
pesquisar, entender e contextualizar.

Porque manutenção se resolve com conhecimento.
Pânico só resolve clique.

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